segunda-feira, 20 de março de 2017

Morrer para viver

Salvador, 20 de Março de 2017

"Você gosta de trabalhar aqui? Tem certeza que é isso que você quer para a sua vida?"
Era para ser sim, mas não, minha querida. Não. Não é isso que imaginei ou imagino para o meu futuro. Talvez você saiba disso, talvez eu nem me engane também. Porém tudo o que precisará por enquanto é de um 'Sim'.
Ser quem você realmente quer ser na vida é difícil atualmente quando o cenário político e econômico está distante do sonhado por todos nós. As oportunidades são escassas e onde elas surgirem, devemos estar. Devemos realmente? 
Nos sujeitamos tanto às coisas materiais e terrenas, como se essas coisas fossem determinantes para nossa existência. Nascemos e somos criados para repetirmos modelos de trabalhadores que irão mover a economia. Tudo por conta de um processo educacional que não forma seres humanos e pensantes, e sim, meros seguidores. Talvez seja muito ativista pensar assim, ou talvez seja pura realidade, mas eu divago. Tudo isso afeta as nossas vidas, principalmente no sentido espiritual. Até a forma que somos educados só nos faz pensar em: trabalhar, casar, procriar. E se você é algo fora disso, parece ser absurdamente anormal. Mas só Deus sabe dos Seus planos para nós, de nossas vocações e o que mais nos couber. 
Acontece que renunciar é preciso.
Se Deus é o que há de mais precioso nas nossas vidas, se Ele é o único sentido que temos, devemos ir atrás d'Ele. Para isso, precisamos morrer.
Não, não tire a sua vida ou faça algo além do seu alcance. A morte é simples e começa pela renúncia.
Devemos morrer para nossos interesses, ambições, vontades e tudo aquilo que pertence ao mundo. Matar as nossas misérias e encontrar a vida pela fonte da mesma. Encontrar a vida na cruz, na ressurreição, no amor. Ir além do que pensamos ver. Tudo isso pelo processo de conversão, que é diária, árdua, mas se for definitiva, a vitória é certa.
É, minha colega, eu realmente não quero isso para a minha vida. O que eu quero vai muito mais além do que me ofereces. Espero alcançá-lo.

domingo, 19 de março de 2017

Caminhada Penitencial

19 de Março de 2017
Salvador, Bahia
Comércio - Bonfim

Era domingo e o sol nem havia aparecido, porém a penitência começara só em acordar cedo. Mas assim foi feito e resolvi dar essa oportunidade para mim e para Jesus. Eu não sei se eu teria algum propósito para essa caminhada, mas meu silêncio era necessário para escutar o que Jesus queria de mim nessa manhã e só agora me permito observar todas os pontos.

A Missa

Passar a missa em pé era apenas um detalhe e uma provação para não murmurar por isto. Todavia a Missa em si foi essencial, o gás necessário para ir adiante por toda a caminhada. A 1ª Leitura (Ex 17, 3-7) é um retrato da sociedade atual, quando ainda duvidamos da presença de Deus em nosso meio e agindo sobre nós. Porém Deus ainda assim garante a sua presença ao Seu povo e não os deixa desamparados, nem mesmo nos momentos difíceis. Na segunda leitura, o versículo que mais me chamou atenção foi:
"E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." (Rom 5, 5)
A esperança não decepciona porque Deus nos garante tudo o que for necessário. Pelo Teu amor, pelo Teu Espírito. Já no Evangelho, tudo isso se confirma através da passagem onde Jesus conversa com a mulher samaritana e faz uma promessa, de quem beber da água oferecida por Ele, nunca mais terá sede. Ou seja, quem bebe das graças divinas, do Espírito Santo, do amor de Deus, não precisará de mais nada. Nem de bens terrenos, dinheiro, fama, luxo, reconhecimento, soberba, luxúria, nada disso importa. Nada disso vai para o céu. O que pertence à Terra, permanece aqui. E nós pertencemos a Deus, por isso, o céu nos espera. E como chegar ao céu? São tantas formas... Mas tudo começa de um primeiro passo: querer ir além.

A Homilia

A Missa presidida na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia foi por Dom Estevam e, como sempre, foi muito feliz em suas palavras. Primeiro, é interessante ver o caráter social mais ativo que a Igreja tomou com o Papa Francisco e isso repercute no direcionamento dos pastores da Igreja. Assim, Dom Estevam chamou atenção sobre todas as cruzes que carregamos, seja do ponto de vista social, ou do ponto de vista espiritual.
Todos nós fomos crucificados na cruz de Jesus, assim como nossos pecados. E através da ressurreição do nosso Senhor, vencemos o pecado. Somos novos, vitoriosos. Porém o caminho é árduo, repleto de cruzes, as quais nem são exclusivamente nossas. Compartilhamos essas cruzes com as pessoas, seja por um governo corrupto, seja pelas minorias, pelos negros que sofrem preconceito, pelos pobres, pelos doentes e desamparados, pelos projetos que não visam essas pessoas... Enfim. Cabe a nós orarmos por todas essas situações e buscarmos essa reconciliação com Cristo. Acreditar que existe uma vitória e ela está na cruz.

A Caminhada

Caminhar por 8 quilômetros parecia inimaginável uns anos atrás, todavia foi pela fé que chegamos até o final. Só em ver o quanto as pessoas se entregam pela cruz, para carregá-la e segui-la já é um grande momento. Ou ver as pessoas da Pastoral Universitária fazendo o gesto ecológico ao recolher as garrafas e deixando todo o caminho limpo e dando uma aula prática de Educação Ambiental já é outro grande fato. Talvez meu momento preferido tenha sido a passagem pelo Largo de Roma e ver toda a comoção nas Obras Sociais Irmã Dulce e seus pacientes observando toda a passagem, talvez um pouco impactados com tamanha prova de amor e tantas pessoas percorrendo. Ou talvez porque quisessem partilhar daquilo tudo também e não poderiam naquele momento. Ainda assim, acenavam, sorriam e se mostravam vivos. Mesmo na dor, pois a esperança habitava neles. Sim, a esperança não decepciona.

Falhanços

Não fui com propósitos pré-estabelecidos, mas registro a minha frustração por ter comido durante a caminhada. Tinha a intenção de jejuar porém não me senti saudável o suficiente para continuar percorrendo sem comer alguma coisa. Ainda assim, a dor de cabeça persistiu, mas nada que atrapalhasse.
Vários jovens estiveram presentes e seus grupos representavam bastante unidade e paixão. Espero que daqui a 1 ano, eu possa dar algum testemunho de que os jovens do nosso grupo fizeram grandes ações por lá.

Versículo Final
João 4, 13-14
Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

São Paulo: dos Coríntios a mim

Depois de um fim de semana turbulento e cheio de crises existenciais por conta de questões ligadas principalmente ao trabalho, em paralelo com a vida, percebi a necessidade de intensificar as orações e de buscar as coisas do Alto, como a própria liturgia da Missa indicava. 

A partir das repercussões do fim de semana e da segunda, resolvi parar para ler a Bíblia e ver o que o Senhor teria para me dizer nesse dia. E o que seria uma simples passagem pela segunda carta de São Paulo aos Coríntios, acabou virando uma leitura quase inteira da carta, tamanha representatividade das palavras aplicadas à minha vida, enquanto jovem, cristão e projeto de missionário.
"Ele nos consola em todas as nossas tribulações, para que possamos consolar os que estão em qualquer tribulação, através da consolação que nós mesmos recebemos de Deus. [...] assim também é grande a nossa consolação por meio de Cristo. [...] pois sabemos que se vocês participam dos nossos sofrimentos, também participarão da nossa consolação. [...] a nossa confiança já não podia estar apoiada em nós, mas em Deus que ressuscita os mortos." (2 Cor 1, 4, 5c, 7b, 9b)
Sim, meu caro. Nosso sofrimento e nossas tribulações são consoláveis através de Deus, para que possamos sentir essa misericórdia. O sofrimento é necessário para nos edificar e fazer com que descubramos algo novo em nossas vidas, além de nos fortalecer. Fortalecer o nosso Espírito e nossa confiança em Deus, pois Ele nos consola da mesma forma. E por quê sofremos? Talvez pelo nosso excesso de expectativas em coisas terrenas e tão desnecessárias ao nosso viver? Por querermos as coisas da nossa maneira achando que será melhor assim? Assim São Paulo questiona a si próprio os seus planos sem deixar de perder a confiança e a certeza em Cristo.
"Será que meus planos foram inspirados por objetivos puramente humanos, de tal modo que em mim existe "sim e não" ao mesmo tempo? [...] Quem nos fortalece juntamente com vocês em Cristo e nos dá a unção é Deus." (2 Cor 1, 17b, 21)
E na sequência, São Paulo nos deixa uma palavra de esperança e fé.
"Deus nos marcou com um selo e colocou em nossos corações a garantia do Espírito." (2 Cor 1, 22)
O carinho e o amor de Deus se manifesta na forma mais simples e promissa. Nós fomos marcados por Deus pelo Espírito Santo, que não nos abandona, é o nosso advogado e nos auxilia. Isso está garantido em nossos corações. Então... por que temer? Por que se apavorar? Se não estamos desamparados e abandonados? Por que falta a coragem, a frieza, o temor?

São Paulo ainda indica que nós somos uma carta de Cristo, o qual escreveu em nossos corações. Não escrita com tinta, mas nas tábuas de carne do nosso coração. E confirma: é de Deus que vem a nossa capacidade. Só d'Ele. Somos capazes de tudo por conta do Espírito que nos dá vida. E é encontrando o Espírito que encontramos a nossa verdade, a nossa liberdade e a nossa paz. Pois inflamados e cheios do Espírito Santo, somos transfigurados na mesma imagem. Assim, levamos luz aonde há trevas; paz onde há ódio; amor onde há frieza; e vida aonde a falta. 

Que Deus não canse de interceder por todos nós e que a Sua misericórdia não cesse, pois nós, tão pequenos que somos, não sabemos o quão grande És o Teu amor.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Pois Tu És Luz...

Salvador, 20 de fevereiro de 2016.

Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis, e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai, Senhor, o Vosso Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da Terra. Oremos, ó Deus, que instruístes o coração dos Vossos fiéis, com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos todas as coisas, segundo o mesmo Espírito. E gozemos sempre de Suas divinas consolações, por Cristo Senhor Nosso. Amém.

Poderia ser mais uma bela noite de sábado, com a lua em sua plenitude a nos observar. Todavia, a mesma fonte de luz proporcionou algo ainda maior. Se não para todos, pelo menos para mim. E um ambiente que parecia tão estranho e incômodo, se tornou puramente meu. Invocamos a presença do Espírito Santo naquele lugar e depois de muito tempo de uma imensa frieza espiritual, consegui abrir o meu coração para poder voltar àquele primeiro amor. E bendito seja Deus, e o Seu Filho, para nos enviar o seu Espírito para não nos deixar desamparados.

De coração aberto, contrito, pude enfim voltar a sentir aquele Espírito se fazendo presente em mim, me impulsionando, levantando, invadindo e me fazendo querer mais e mais. Assim, comecei a pedir e a interceder, coisa que não fazia a meses, e entregando toda a programação daquele luau, com a certeza de que o Espírito Santo iria se fazer presente para todas aquelas pessoas presentes em prol de uma única coisa, de um único amor.

Todavia, quando achei que iria embora, começaram a rezar o terço. E nesse momento, fiquei aliviado por meus pais terem ficado mais um pouco e pela oportunidade de rezar o terço, pela necessidade que senti naquele momento. E ao fim do terço, depois de muita luz, nos erguemos com cada vela. Poderia até ser uma metáfora perfeita para o meu contexto. Enquanto ela se acendia pela primeira vez, ela se manteve acesa e brilhante. Inspiradora, até. Porém, num momento de descuido, sua luz queimou e machucou uma pétala vizinha, e seu fogo teve de ser apagado. Sem luz, parecia triste, abatida, até que ela foi reacendida e voltou a ter vida, sem mais ser apagada, sem mais descuidada, até ser transmitida a outro alguém.


Finalizado o terço, meus pais me chamaram para ir embora. Entretanto, fui surpreendido ao conversar com um rapaz que estava quase do meu lado, o qual cheguei a compartilhar da minha luz por um momento. Todavia, quem estava cheio de luz era ele. Com uma simpatia ímpar, ele simplesmente me abraçou, sorriu e perguntou meu nome, seguido da minha resposta. Posteriormente, ele disse algumas palavras que eu queria poder ter gravado e ter reproduzido por várias vezes, tamanha a veracidade e benção daquelas palavras, as quais seriam:

"Não tenha medo de se aproximar de Deus, de se manter em oração, de orar, de estar próximo d'Ele. Mesmo que achem que você é louco ou careta, não tenha vergonha. Não tenha medo."

Em seguida, eu não consegui pensar em mais nada a dizer a não ser: "É exatamente isso que eu precisava ouvir. Muito obrigado". Assim, ele fez uma breve despedida me convidando para ficar para a pregação dele, a qual não poderia ficar, infelizmente. Porém aquelas palavras me deixaram extremamente perturbado. De uma forma incômoda, beirando a urgência de querer mais daquilo. Como uma pessoa que nunca me viu na vida, mal sabia de mim e podia dizer palavras tão completas e preenchidas? Eu precisava de mais! E aquilo continuou me perturbando excessivamente. E assim, percebi a ação do Espírito Santo. Confirmando a sua presença em mim, através dele, e me fazendo enxergar além do que precisava.

Restou-me acalmar o coração e escrever para espantar um pouco a aflição. Todavia, ainda espero conversar com o pregador para poder conversar mais sobre isso e fazer com que essa luz não se apague, mas se torne ainda mais forte.

"De fato, aquele que ama a vida 
e deseja ver dias felizes 
guarde sua língua do mal 
e seus lábios de proferir mentiras;
afaste-se do mal e pratique o bem,
busque a paz e procure segui-la."

1 Pe 3, 10-11